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A ameaça do gnosticismo ao cristianismo


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Apesar de haver elementos especulativos muito importantes no gnosticismo, o fato desse ensino ser usualmente apresentado como um conjunto de sistemas de especulações numerológicas tornou impossível entender como tal doutrina pode ter sido um rival tão forte da igreja. O fato do gnosticismo ter se tornado uma alternativa atraente em relação ao Cristianismo ortodoxo deve-se, sobretudo, a seu interesse soteriológico.

A fim de entender este apelo, deve-se interpretar o gnosticismo, acima de tudo, como um modo de salvação. O cosmopolitanismo que acompanhou as conquistas de Alexandre tinha sua contraparte no individualismo das pessoas. Acreditava-se que as antigas religiões nacionais não eram mais capazes de satisfazer às necessidades do indivíduo. Por esta razão, os séculos nos quais o Cristianismo começou a conquistar seu espaço no mundo foram caracterizados por uma procura pela salvação individual; consequentemente, nesse tempo, houve um crescimento daquelas religiões que proclamavam oferecê-la - e além do Cristianismo, assim faziam as religiões de mistério e o gnosticismo.

Dessa forma, o gnosticismo é, sobretudo, uma doutrina de salvação. Mas, para essa doutrina, qual é a natureza de tal salvação? De acordo com o gnosticismo, a salvação consiste na libertação do espírito, uma vez que este está escravizado por causa de sua união com coisas materiais. Nos seres humanos, o corpo e a "alma animal" pertencem ao mundo material, pois a alma é aquilo que dá ao corpo sua vida, desejos e paixões. O espírito na verdade não pertence a este mundo; é parte da substância divina. Por alguma razão que é normalmente explicada mitologicamente, o espírito caiu neste mundo e se tornou um prisioneiro da matéria. Sendo assim, é necessário libertar o espírito desta prisão; e isto é obtido por meio do conhecimento ou gnosis - por isso o nome de gnosticismo.

Tal conhecimento não consiste em mera informação. Trata-se, em vez disso, de uma iluminação mística resultante da revelação do eterno. O conhecimento é, então, uma compreensão da situação humana, do que fomos outrora e do que deveríamos nos tornar; por meio do conhecimento podemos ser libertos dos laços que nos prendem ao mundo material. Por outro lado, estamos de tal forma escravizados por nossa união com a matéria que somos incapazes de conhecer a verdade eterna por nossos próprios meios; isso torna necessário que um mensageiro seja enviado do mundo espiritual transcendente a fim de nos trazer sua revelação libertadora. Esse mensageiro é característico em todos os sistemas gnósticos, e no gnosticismo cristão é Cristo quem realizará esta missão.

De qualquer forma, a doutrina da salvação deve estar baseada em uma compreensão de nosso lugar no universo, e esta é a função das complicadas construções especulativas dentro dos vários sistemas gnósticos. Se o espírito está aprisionado na matéria, deve haver uma razão para esta condição; e esta razão os gnósticos tentam oferecer por meio de suas especulações. Há duas características principais nestas especulações: seu dualismo derivado e sua numerologia. O dualismo do gnosticismo, que por muitos eruditos têm sido enfatizado como uma de suas principais características, não é um dualismo primário ou inicial; ao contrário, resulta de um monismo inicial. As especulações gnósticas são traçadas a partir de um único princípio eterno, do qual outros princípios ou aeons são produzidos em um processo declinante, até - geralmente é dito, devido a um erro em um dos aeons anteriores - o mundo material ser produzido. Assim aparece o dualismo derivado entre a matéria e o espírito, ou entre o celestial e o terreno. Dentro do processo de produção dos vários níveis de aeons, a numerologia - outra característica muito comum na especulação helenística - representa um papel importante, pois os aeons geralmente são produzidos seguindo certos modelos numéricos. A cosmologia gnóstica nasce de tal combinação entre o dualismo derivado e a especulação numerológica, e é caracterizada por uma complexa série de aeons que ficam entre o absoluto e o mundo material. Estes seres são frequentemente vistos como esferas que o espírito deve atravessar em seu retorno à eternidade.


Veja também o artigo "Irineu de Lião ataca o gnosticismo"



Uma História do Pensamento Cristão - 3 volumes

(GONZÁLEZ, Justo L., Uma História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. vol. 1, pp. 125-127)

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