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Jo 10:27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem

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Reflexões no Salmo 119

O Salmo 119 é geralmente lembrado por ser o capítulo mais longo da Bíblia e, também, por referir-se, quase que exclusivamente, à importância da Palavra de Deus para a vida do cristão. Confesso que, a exemplo de muitos irmãos, nunca havia me aventurado a meditar mais detidamente sobre o Salmo 119, já que as poucas vezes que o li, o fiz mais por obrigação que por prazer.

Entretanto, um dia desses, senti no meu coração o desejo de mergulhar no Salmo 119, buscando entender melhor o que ele ensina. Fiquei maravilhado com algumas “descobertas”, que gostaria de compartilhar com os irmãos.

A estrutura do Salmo 119 é bem conhecida. É um salmo composto de 22 estrofes, uma para cada letra do alfabeto hebraico, de “Álefe a Tau”, ao que corresponderia a “de A a Z” no nosso alfabeto ocidental, ou seja, é um poema em acróstico com as 22 letras do alfabeto hebraico compostas em estrofes. Cada estrofe é composta de 8 versículos, que, no original hebraico, começam com a mesma letra a que se refere a estrofe. Oito também são os sinônimos, em hebraico, para as palavras que se referem à Palavra de Deus, geralmente traduzidas em português por:

1) lei;

2) testemunhos;

3) preceitos;

4) estatutos;

5) mandamentos;

6) juízos;

7) palavra;

8) ordenanças.

Ou seja, ao que parece, o escritor do Salmo, divinamente inspirado, quis compor um hino à beleza e à perfeição, procurando abranger num único poema a totalidade dos atributos da Palavra de Deus.

O texto-base para este estudo é a versão Almeida Revista e Corrigida, intercalado com outras versões expressamente citadas. O versículo que sempre me havia chamado mais a atenção no Salmo 119 é o 9:

“ Como purificará o jovem o seu caminho?

Observando-o de acordo com a tua palavra.”

Acho que todos nós, jovens ou não tão jovens, buscamos sempre, com a melhor das intenções, viver e manter um caminho puro. O Salmo 119:9 diz que a melhor (ou única) maneira é observar e alinhar o nosso caminho à Palavra de Deus.

Face ao pecado, o salmista nos dá uma lição no verso 11:

“Escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti.”

“Esconder a palavra no coração” foi sempre um recurso usado pelos cristãos em épocas de perseguição, do Império Romano à Era Comunista, mas quantos de nós realmente nos preocupamos em guardar a palavra no coração para não pecar contra Deus? É interessante que a própria raiz latina da palavra “decorar” (no sentido de “memorizar”) vem do coração (“de cuore”), ou seja, significa “guardar no coração”. Mais interessante ainda é que o próprio idioma inglês conserva este significado, já que “decorar” em inglês se diz “to learn by heart”.

O salmista reconhece no verso 18 que, para entender a Palavra de Deus, é preciso que Ele desvende os seus olhos, como se houvesse (como de fato há) uma visão espiritual da Palavra, uma espécie de chave que só a intimidade com o Senhor concede.

O salmista também se confessa peregrino na terra (v. 19), e repete esta idéia no verso 54 quando diz que “ os teus estatutos têm sido os meus cânticos na casa da minha peregrinação ”. Ao que parece, o peregrino deve estar sempre cantando. A Bíblia do Peregrino traduz este versículo por “ Tuas normas eram minha música em casa estrangeira ”, a Bíblia de Jerusalém por “ teus estatutos são cântico para mim, para minha casa de peregrino ”, e a Nova Versão Internacional (NVI) por “ os teus decretos são o tema da minha canção em minha peregrinação ”. A exemplo de tantos homens de Deus, muitos listados em Hebreus 11 (em especial no v. 13), o salmista assume-se como peregrino nesta terra, atribuindo à Palavra de Deus o caráter de “companheira” de peregrinação nesta “terra estrangeira” que é o mundo para os filhos de Deus.

A estrofe que eu mais gostei, nesta meditação, no Salmo 119, é aquela correspondente à letra hebraica Dálete (versos 25-32, versão Almeida Revista e Atualizada):

25 A minha alma apega-se ao pó; vivifica-me segundo a tua palavra.

26 Meus caminhos te descrevi, e tu me ouviste; ensina-me os teus estatutos.

27 Faze-me entender o caminho dos teus preceitos; assim meditarei nas tuas maravilhas.

28 A minha alma se consome de tristeza; fortalece-me segundo a tua palavra.

29 Desvia de mim o caminho da falsidade, e ensina-me benignidade a tua lei.

30 Escolhi o caminho da fidelidade; diante de mim pus as tuas ordenanças.

31 Apego-me aos teus testemunhos, ó Senhor; não seja eu envergonhado.

32 Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando dilatares o meu coração.

O verso 25 lembra o conselho de Jeremias, em Lamentações 3:29, quando ele recomenda que o jovem coloque a boca no pó, em atitude de silêncio, adoração e humilhação diante de Deus. A NVI traduz o verso 25 assim: “ agora estou prostrado no pó; preserva a minha vida conforme a tua promessa ”. O salmista está prostrado no pó, mas “cobra” a promessa de Deus para preservar a sua vida. “ Apegado ao pó ”, como a Bíblia do Peregrino comenta, significa “estar nas últimas”, na mesma situação do Salmo 44:25 (“ Pois a nossa alma está abatida até o pó; o nosso corpo pegado ao chão ”). O salmista, entretanto, não fica somente prostrado no pó, mas no verso 26, ele diz que descreve os seus caminhos ao Senhor. Ele se silencia em espírito, mas abre a sua boca para confessar ao Senhor os caminhos que trilhou. A Bíblia do Peregrino traduz esta atitude por “ eu te contei as minhas andanças ”. A Bíblia de Jerusalém traduz assim: “ enumero meus caminhos ”. Fica claro, para mim, que esta é a mesma atitude de Davi, nos seus salmos de confissão, o 32 e 51, quando busca a sinceridade diante de Deus e não esconde os seus pecados, em especial no verso 5 do salmo 32:

“Confessei-te o meu pecado, e a minha iniqüidade não encobri.

Disse eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões;

e tu perdoaste a culpa do meu pecado.”

Davi sabia que “ o sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus ” (Salmo 51:17). Por isto ele contou as suas andanças, enumerou os seus caminhos, e este é um requisito essencial para que Deus nos ouça e nos ensine os Seus estatutos. O primeiro salmo escrito na Bíblia, por Moisés, já usava o recurso de “enumerar” os dias, pedindo a Deus o auxílio:

“Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos coração sábio.” (Salmo 90:12)

Ouso dizer que Deus não está em busca de super-heróis que insistem em ficar de pé mesmo quando tudo vai mal, mas Ele busca homens e mulheres que não têm vergonha de prostrar-se no pó, confessar os seus pecados e a sua impotência para lidar com a situação, e aguardar pacientemente pela Sua promessa de preservar-lhes a vida. No verso 38, novamente o salmista clama pela promessa de Deus:

“Confirma a tua promessa ao teu servo,

que se inclina ao teu temor.”

Mas agora o salmista inclui outro elemento na sua oração, o temor de Deus, e se diz “ companheiro de todos os que te temem ” (v. 63), aborrecendo todo caminho falso (v. 128) e buscando os seus preceitos para que possa andar em liberdade (v. 45). Os momentos de angústia fazem parte do caminho do fiel, e a consolação para ele vem da esperança na Palavra que vivifica (vv. 49-50).

Quando o salmista afasta-se da Palavra, o resultado automático é a aflição:

67 - Antes de ser afligido, andava errado; mas agora guardo a tua palavra .

71 - Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos

75 - Bem sei eu, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que em tua fidelidade me afligiste.

76 - Sirva, pois, a tua benignidade para me consolar, segundo a palavra que deste ao teu servo.

Ao que parece, o salmista havia-se desviado dos caminhos do Senhor, e clama a Ele para que o resgate, pois o último versículo (176) termina o salmo dizendo isto:

176 - Desgarrei-me como a ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos.

Mesmo quando desfaleceu a sua alma, esperando por este resgate, o salmista continuou confiando na Palavra de Deus:

81 - Desfaleceu a minha alma, esperando por tua salvação; mas confiei na tua palavra.

Um dado curioso no Salmo 119 é que, ao que parece, muito tempo antes disto vir a ser conhecido, o salmista já conhecia os efeitos danosos do colesterol, pois ao comentar sobre os soberbos, ele diz:

70 - Engrossa-se-lhes o coração como gordura, mas eu me alegro na tua lei.

A Bíblia de Estudo NVI diz que a tradução literal é que o coração dos soberbos fica “gordo como graxa”, o que é uma constatação no mínimo curiosa para alguém que viveu milênios antes dos avanços científicos do século XX. Em contraste, no verso 32, já citado antes, o salmista diz que percorrerá os caminhos dos mandamentos de Deus, quando Ele lhe “dilatar o coração”. A NVI diz que a versão hebraica literalmente quer dizer “aumentar o coração com alegria”, comparando-a com Isaías 60:5, que diz:

“Então o verás e ficarás radiante, o seu coração pulsará forte e se encherá de alegria.”

Bem, essas são apenas algumas reflexões sobre este Salmo tão rico em ensinamentos.