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Vida de Martim de Tours

Escrito por  Justo Gonzalez

Martim de Tours

O caso mais claro, porém, da maneira com que um monge, bispo e santo contribuiu para a popularidade do ideal monástico temos em Martim de Tours. A Vida de São Martim, escrita por Sulpício Severo, foi um dos livros mais populares em toda a Europa durante vários séculos, e contribuiu para forjar o monaquismo ocidental, que foi tão importante para a história da igreja.

Martim nasceu por volta de 335 na região da Polônia, onde hoje é a Hungria. Seu pai era um soldado pagão, e por isso durante sua infância Martim esteve em diversas partes do Império, se bem que a cidade de Pavia, no norte da Itália, parece ter sido o lugar onde residiu com mais freqüência. Ele tinha dez anos quando decidiu ser cristão, contra a vontade de seus pais, e mandou incluir seu nome na lista dos catecúmenos – isto é, os que se preparavam para receber o batismo. Seu pai, para separá-lo do contato com os cristãos, fez com que ele ingressasse no exército. Era o tempo em que Juliano – depois conhecido como “o Apóstata” – dirigia suas primeiras campanhas militares. Martim esteve a seu serviço durante vários anos, e durante este período, conta-se, ocorreu o episódio mais famoso de sua vida.

Martim e seus companheiros estavam entrando na cidade de Amiens quando um mendigo seminu, tiritando de frio no meio da neve, lhes pediu uma esmola. Martim não tinha dinheiro para lhe dar, mas tomou sua capa, rasgou-a em duas partes, e lhe deu a metade. Nesta noite Martim viu em sonhos Jesus Cristo envolto em sua meia capa, dizendo-lhe: “Tudo o que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste”.

Este episódio ficou tão famoso que a partir de então Martim geralmente é representado repartindo sua capa com o mendigo. Além disto deriva deste episódio nosso termo “capela”, pois algum tempo depois era conservada em um pequeno templo o que se dizia ser a meia capa – a “capela” de Martim – e daquele pequeno templo nossas “capelas” e nossos “capelães” de hoje derivam seu nome.

Pouco depois do incidente de Amiens, Martim recebeu o batismo, e finalmente depois de dois anos pôde abandonar o serviço militar. Então ele visitou o famoso bispo de Poitiers, Hilário, com quem estabeleceu uma amizade duradoura. Depois diversas tarefas e circunstâncias o levaram a diversas partes do Império, até que por fim se estabeleceu perto de Tours, nas proximidades de Poitiers. Ali ele se dedicou à vida monástica, enquanto sua fama crescia enormemente. Contava-se que através dele Deus operava grandes maravilhas, e que apesar de tudo sua humildade e sua doçura nunca o abandonaram.

Martim de ToursQuando o bispado de Tours ficou vago, o povo queria eleger Martim para ocupá-lo. Alguns bispos presentes no processo de eleição, todavia, se opunham a isto, dizendo que Martim era um indivíduo sujo, esfarrapado e de cabelos desgrenhados, que diminuiria o prestígio do cargo de bispo. No meio da discussão chegou a hora de ler as Escrituras, e o leitor não aparecia em nenhum lugar. Então um dos presentes tomou o livro, abriu-o por acaso e começou a ler: “Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingado” (Salmo 8:2). A multidão presente recebeu esta leitura como uma palavra do alto. Martim, o sujo e descabelado que os bispos desprezavam era o escolhido de Deus para fazer calar os que se opunham aos seus planos – isto é, os bispos. Sem mais espera Martim foi feito bispo da cidade de Tours.

O novo bispo, no entanto, não estava disposto a abandonar seu retiro monástico. Mandou construir do lado da catedral uma cela onde ele passava todo o tempo que suas tarefas pastorais lhe deixavam livre. Quando sua fama era tal que as pessoas o importunavam demais ele se retirou para um mosteiro que fundou fora da cidade, e de onde visitava seus fiéis.

Quando Martim morreu muitos o consideravam um santo, e sua fama e exemplo levaram muitos a pensar que todo verdadeiro bispo deveria ser como Martim. Assim o movimento monástico, que em suas origens continha muitos protestos contra o mundanismo e a pompa de muitos bispos, a longo prazo deixou sua marca até mesmo no ideal do bispado.



A Era dos sonhos frustradosGONZALEZ, Justo L., Uma história ilustrada do cristianismo, Vol. 5, páginas 95 a 102, editora Vida Nova.

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