• Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.

    Mateus 5:44,45

  • Disse-lhes ele: Por causa da vossa pouca fé; pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível

    .

    Mateus 17:20

  • Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre?

    Lucas 15:4

  • Então ele te dará chuva para a tua semente, com que semeares a terra, e trigo como produto da terra, o qual será pingue e abundante. Naquele dia o teu gado pastará em largos pastos.

    Isaías 30:23

  • As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;

    João 10:27

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Verso do dia

Filiação e coessencialidade de Cristo por Atanásio de Alexandria

Escrito por  Gustavo
Atanásio - Frederikskirken

Qualquer pessoa que deseje estudar teologia cristã nos nossos dias irá se deparar com um rico vocabulário teológico. Podemos encontrar uma discussão sobre a doutrina da Trindade e como Deus é um em essência ou como há três hipóstases na divindade, podemos falar também da união hipostática ou da encarnação do Verbo. Podemos ainda discutir sobre soteriologia, ou quem sabe um pouco de bibliologia... Todos estes termos são nosso legado, deixado para nós pelos teólogos que nos precederam.

Este legado foi forjado no calor de grandes batalhas teológicas, já que os grupos heterodoxos conseguiam torcer o sentido das palavras nas Escrituras sempre a seu favor. Era necessário, portanto, deixar claro o que era ensinado, e esta foi a tarefa dos primeiros teólogos cristãos. Obviamente, como todo empreendimento humano, este também estava propenso a erros e acertos. Alguns teólogos adotariam termos ou ideias que posteriormente seriam rejeitados. Quanto a isto, J.N.D. Kelly nos explica que isto era mais do que natural:


Os estudantes de hoje às vezes ficam surpresos com a diversidade de tratamentos dispensados até mesmo pelos pais posteriores a um mistério como a expiação; e era comum certos pais (Orígenes é o exemplo clássico), mais tarde considerados heréticos, serem contados entre os ortodoxos enquanto viviam. A explicação não é que a igreja antiga fosse indiferente à distinção entre ortodoxia e heresia. A verdade é que, embora o esboço geral da verdade revelada tenha sido respeitado desde o começo, como uma herança sacrossanta recebida dos apóstolos, em muitos aspectos sua explicação teológica não recebeu restrição alguma. Apenas gradualmente, e mesmo assim com respeito a relativamente poucas doutrinas que se tornaram objeto de debate, firmou-se a tendência de insistir em definições precisas e numa uniformidade rígida3.

É dentro deste contexto de desenvolvimento teológico que apresentamos este precioso trecho da carta De Synodis, de Atanásio. Ele foi um incansável defensor da doutrina da Trindade, principalmente depois do concílio de Niceia, e foi ele quem dá início ao estabelecimento do vocabulário teológico relacionado a esta doutrina, sendo assim um ótimo ponto de partida para aqueles que desejam se aprofundar no tema. Antes de apresentar o texto, no entanto, é importante conhecer o contexto histórico da passagem.

Atanásio escreve sua De Synodis a partir de seu terceiro exílio, no ano de 359 d.C. O concílio de Niceia terminara cerca de 34 anos antes, resultando em uma derrota para partido ariano, declarado anátema. No entanto, o emprego de algumas palavras como homoousios no credo niceno deixaria vários bispos apreensivos. Estas palavras haviam sido usadas por outro grupo herético mais antigo, os sabelianos, para defender seus pontos de vista. Não querendo dar oportunidade para esta velha heresia ganhar novo fôlego, ao mesmo tempo evitando também o erro ariano, vários bispos adotaram um novo termo para descrever a natureza de Cristo: homoiousios. Justo Gonzalez nos fala mais sobre este novo grupo:

Os homoiousianos – do grego ὁμοιούσιος, de substância semelhante – que às vezes são chamados equivocadamente de semi-arianos, são os herdeiros dos antigos receios a respeito da fórmula de Niceia, que tinham a ver, não com o fato de que ela condenava o arianismo, mas com sua aparente abertura ao sabelianismo. Este grupo apareceu como tal quando, após a “blasfêmia de Sirmium”, os teólogos mais moderados sentiram a necessidade de se oporem não apenas ao sabelianismo, mas também ao arianismo. A “blasfêmia de Sirmium” afirmava que o Filho era substancialmente diferente do Pai, e que seu relacionamento não poderia ser expresso pelo termo “homoousios”, ou mesmo “homoiousios”. Esta é a primeira vez que o termo homoiousios aparece nos textos que foram preservados, mas o fato de que é atacado, parece implicar que alguns teólogos já tinham começado a usá-lo como um meio de evitar tanto o sabelianismo quanto o arianismo. De qualquer modo, após a “blasfêmia de Sirmium”, surge um grupo que é normalmente chamado de homoiousianos, sob a liderança de Basílio de Ancira. A princípio, os homoiousianos – além de Basílio, devemos mencionar Cirilo de Jerusalém e Melétio de Antioquia – eram opostos ao Arianismo, bem como ao grupo niceno, mas aos poucos eles se tornaram conscientes de que, pelo menos em sua intenção, sua posição coincidia com a dos defensores do homoousios.

O nascimento do grupo homoiousiano, como um partido claramente definido, ocorreu em 358 d.C., quando um sínodo reunido em Ancira sob a liderança de Basílio produziu a primeira fórmula homoiousiana. Nessa fórmula, podemos ver a reação da maioria conservadora à “blasfêmia de Sirmium”. Aqui, a similaridade substancial entre o Pai e o Filho é categoricamente afirmada. Essa similaridade é tal que, no que se refere à distinção entre o Criador e as criaturas, o Filho está muito claramente próximo ao Pai e não entre as criaturas. Isto não significa, contudo, que haja uma identidade total entre o Pai e o Filho, pois suas substâncias – ousiai – não são uma, mas duas. Esse grupo conquistou uma grande vitória quando Constâncio, provavelmente procurando um meio-termo que restaurasse em alguma medida a unidade de seu império dividido, a apoiou.

A falta de precisão nos termos empregados nessa discussão foi uma das dificuldades que a igreja do século 4o encontrou na tentativa de esclarecer o relacionamento entre o Pai e o Filho. No Ocidente, uma terminologia mais fixa já havia sido alcançada, e o termo “substância” era usado para se referir à divindade única e comum, enquanto que a individualidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo era expressa por meio do termo “pessoas”. No Oriente, por outro lado, não havia a mesma precisão e firmeza na terminologia . Para os teólogos orientais, ousia e hypostasis eram sinônimos – e como tais eram usadas nos anátemas acrescentados ao credo niceno – e não havia termo que pudesse traduzir adequadamente “persona” do latim, pois o grego “prosopon” poderia ensejar interpretações sabelianas. Portanto, quando os defensores nicenos falavam de uma única ousia, muitos bispos orientais viam isto como uma tentativa de reintroduzir o sabelianismo. E quando os bispos mais conservadores – neste caso os homoiousianos – falavam de uma dualidade de ousiai, os nicenos pensavam que isto era meramente uma nova forma de arianismo3.

Vemos aqui então uma situação onde o vocabulário teológico era o motivo principal da controvérsia. Foi somente com Atanásio que a controvérsia foi resolvida:

Foi nesta conjuntura que Atanásio deu um passo decisivo que levaria finalmente à vitória da fé nicena: em um sínodo reunido em 362 d.C., foi declarado que as diferenças verbais não eram importantes, contanto que o significado fosse o mesmo. Assim, ambas as frases “três hipóstases” e sua contraparte “uma hipóstase” são aceitáveis contanto que a primeira não seja interpretada de tal modo que apoie o triteísmo ou a última de um modo sabeliano. Com esta decisão, o grupo niceno abriu caminho para uma aliança com a maioria conservadora. Começava agora um longo processo de esclarecimento do significado dos vários termos, com vistas a alcançar uma fórmula aceita por todos e a consequente condenação definitiva do arianismo3.

É aqui então que chegamos à carta De Synodis, onde ele trata da questão dos homoiousianos. Na seção 41 e 42 desta carta, temos um texto muito interessante, onde Atanásio explica o uso do termo homoousios e como ele deve ser entendido:

41. Aqueles que negam o Concílio na totalidade são suficientemente expostos por estas breves observações, aqueles, contudo, que aceitam tudo mais que foi definido em Niceia, e não creem somente no Coessencial, não devem ser tratados como inimigos, nem devemos nós aqui os atacar como ario-maníacos, nem como oponentes dos Pais, mas nós discutimos a questão com eles como irmãos, que querem dizer o que dizemos, e disputam apenas sobre a palavra. Pois, confessando que o Filho é da essência do Pai, e não de outra subsistência, e que Ele não é uma criatura nem obra, mas Sua genuína e natural descendência, e que Ele é eternamente com o Pai como sendo Sua Palavra e Sabedoria, eles não estão longe de aceitar até mesmo a frase “Coessencial”. Agora tal é Basílio, que escreveu de Ancira a respeito da fé. Pois somente dizer “parecido de acordo com a essência” é muito distante de querer dizer “da essência”, pelo qual, ao contrário, como eles mesmos dizem, a genuinidade do Filho ao Pai é significado. Assim o estanho é somente parecido com a prata, um lobo com um cão e o latão dourado ao verdadeiro metal; mas o estanho não é de prata, nem poderia um lobo ser contado como geração de um cão. Mas já que eles dizem que é “da essência” e “parecido-em-essência”, o que eles querem dizer por estes senão “Coessencial”? Pois, enquanto que ao dizer somente “parecido-em-essência” não necessariamente se quer dizer “da essência”, ao contrário, dizer “Coessencial” é dar o significado de ambos os termos, “parecido-em-essência” e “da essência”. E consequentemente eles mesmos em controvérsia com aqueles que dizem que o Verbo é uma criatura, ao invés de permitir que ele seja um Filho genuíno, tendo tomado suas provas contra eles de ilustrações humanas de filho e pai, com esta exceção que Deus não é como homem, nem a geração do Filho como um assunto do homem, mas tal como pode ser atribuído a Deus e é adequado para nós pensarmos. Assim eles têm chamado o Pai de Fonte de Sabedoria e Vida, e o Filho o Brilho da Luz Eterna e a Geração da Fonte, como Ele diz, “Eu sou a Vida” e “Eu, a Sabedoria, habito com prudência” (Jo 14:6; Pv 8:12). Mas o Brilho da Luz e a Geração da Fonte, e Filho do Pai, como podem estes ser tão adequadamente expressos por “Coessencial”? E há alguma causa de temor, já que a geração dos homens é coessencial, o Filho, sendo chamado coessencial, seja Ele mesmo considerado como uma geração humana também? Que tal pensamento pereça! Nem tanto, mas a explicação é fácil. Pois o Filho é a Palavra e Sabedoria do Pai; de onde nós aprendemos a impassibilidade e indivisibilidade de tal geração do Pai. Pois nem mesmo a palavra do homem é parte dele, nem procede dele de acordo com a paixão; muito menos a Palavra de Deus; a quem o Pai declarou ser Seu próprio Filho, para que, de outra forma, se nós meramente ouvíssemos “Palavra”, nós poderíamos supor que Ele, tal qual é a palavra do homem, fosse impessoal; mas ao ouvir que Ele é Filho, nós possamos reconhecê-lo como a Palavra viva e Sabedoria substantiva.

42. Consequentemente, ao dizer “geração”, nós não temos nenhum pensamento humano, e apesar de nós sabermos que Deus é um Pai, nós não mantemos nenhuma ideia material a respeito dele, mas enquanto nós ouvimos estas ilustrações e termos, nós pensamos de forma adequada a Deus, pois Ele não é como o homem, assim da mesma forma, quando nós ouvimos “coessencial”, nós devemos transcender todos os sentidos e, de acordo com o Provérbio, “entender pelo entendimento do que foi estabelecido perante nós” (Pv 23:1), para sabermos que não é por vontade mas em verdade que Ele é genuíno do Pai, como a Vida da Fonte e o Brilho da Luz. Então por que deveríamos entender “geração” e “filho” de nenhuma forma corporal, enquanto que concebemos “coessencial” segundo a forma dos corpos? Especialmente já que estes termos não são aqui usados a respeito de diferentes sujeitos, mas de quem “geração” é predicado, dele também é “coessencial” predicado. E é senão consistente atribuir o mesmo sentido a ambas expressões como são aplicadas ao Salvador, não interpretando “geração” em um bom sentido e “coessencial” de forma contrária, já que para ser consistente, vocês que pensam assim e que dizem que o Filho é a Palavra e Sabedoria do Pai, deveriam manter um diferente ponto de vista destes termos também, entendendo Palavra em outro sentido e Sabedoria ainda em outro. Mas, como isto seria absurdo (pois o Filho é a Palavra e Sabedoria de Deus, e a Geração do Pai é um e próprio à Sua essência), assim o sentido de “Geração” e “Coessencial” é um, e quem considera o Filho uma geração, de forma correta o considera também “Coessencial”3.

Vemos acima como Atanásio lida então com a deturpação das palavras das Escrituras por parte dos arianos. Afinal de contas, quando as Escrituras falam que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o que elas estão comunicando? Os arianos interpretavam isto ao pé da letra, imaginando que Deus, assim como os homens, gerasse um Filho. É por isto que eles acreditavam que Cristo fosse uma criatura. Atanásio, por outro lado, aponta para o fato de que Deus não gera filhos assim como os homens. No entanto, o filho possui a mesma essência do pai. Assim, o filho de um ser humano também é um ser humano, um filho de um cão é também um cão. E o Filho de Deus também é Deus, sendo coessencial ao Pai.

Notas

1. J.N.D. Kelly, Patrística, Origem e Desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã, Ed. Vida Nova, págs. 3 e 4.

2. Justo L. Gonzalez, Uma História do Pensamento Cristão, Volume 1, Editora Cultura Cristã, págs. 273 a 275.

3. Ibid.

4. Atanásio, De Synodys, traduzido da obra de Phillip Schaff, NPNF2-04. Athanasius: Select Works and Letters. Texto original em inglês pode ser encontrado em http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf204.xxii.ii.iii.html.

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