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As jumentinhas de Balaão

Uma reflexão sobre os repetitivos escândalos que envolvem as igrejas evangélicas no Brasil.

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Houve um tempo (não tão antigo assim) em que os jornais raramente davam notícias sobre os evangélicos (então chamados de "protestantes") e, quando o faziam, geralmente eram apenas informações neutras ou positivas sobre algum trabalho evangelístico ou social que eles desenvolviam. Hoje, infelizmente, parece que as notícias sobre "evangélicos" correspondem a uma subseção das páginas policiais.

Frequentam-nas autoproclamados "apóstolos", "bispos" e "pastores" dos mais variados matizes. A Folha de S. Paulo informa na edição de 11/08/09 (disponível na Folha Online), que a Justiça aceitou denúncia do Ministério Público, e abriu ação penal contra Edir Macedo e mais nove integrantes da cúpula da Igreja Universal, por movimentação financeira suspeita de R$ 4 bilhões no período de 2003 a 2008. Parece que todas as suspeitas que envolvem a organização em questão serão investigadas pelo Poder Judiciário, com amplo direito de defesa obviamente.

Este novo escândalo se soma a outros tantos perpetrados por igrejas que se dizem evangélicas, como o caso do apóstolo e da bispa da Igreja Renascer. Em casos como esses, os líderes investigados rapidamente tentam levantar uma nuvem de poeira para desviar a atenção, dizendo-se perseguidos porque estão pregando o evangelho. Ainda que outras tantas igrejas evangélicas se sintam animadas a levantar os seus membros em defesa de uma suposta fraternidade cristã, o fato é que muitos crentes viram apenas massa de manobra nas mãos de seus líderes, que assim agem - não raras vezes - na base da troca de favores e esconderijos com os outros que estão na berlinda. Tudo isso estimula uma verdadeira briga de torcidas organizadas na saída do estádio, como parece que muitas igrejas se tornaram, associações de fãs (com alguns fanáticos incluídos no pacote). É tudo na base do "eles contra nós", "nós contra eles", sendo que não fica muito claro quem é que são "eles" nem quem somos "nós". Afinal, o diabo tem as costas largas, e é fácil jogar a culpa nele por todas as mazelas e escândalos que caem repetidamente sobre as costas dos iluminados de plantão. Assim, a igreja evangélica brasileira, genericamente considerada, se movimenta num ridículo comportamento de manada, em que a grande vítima pisoteada é o evangelho puro e simples de Jesus Cristo.

Confesso que, quando essas igrejas neopentecostais surgiram e se consolidaram no decorrer das décadas de 70, 80 e 90, embora já houvesse muitas denúncias sobre suas práticas - no mínimo - esdrúxulas, eu mantinha um pé atrás antes de criticá-las, movido pela advertência de Jesus aos seus discípulos quando estes se preocupavam com um homem que expulsava demônios em nome do Mestre, que lhes respondeu: "Quem não é contra nós, é por nós" (Marcos 9:40). Eu imaginava que eles não eram contra nós. Não queria generalizar este "eles" e "nós", tão comum nas torcidas organizadas atuais. Hoje, passadas as décadas, eu chego a conclusão de que eles são sim contra nós, não porque nós temos qualidades maravilhosas, mas eles são contra o evangelho simples da mensagem da cruz e da salvação que há em Cristo, que é o que existe de mais precioso em nossas vidas. Como o volume financeiro acima descrito fala por si só, essas igrejas estão muito mais preocupadas com algo também precioso: ELE, o dinheiro que amealham dos incautos que caem em suas redes. Tanto que uma observação rápida de suas pregações televisivas mostra que eles raramente falam do nome de Jesus, como se tivessem vergonha de citá-lo. Falam genericamente de um "deus" que não sabemos se tem "D" maiúsculo, que cobre de bens todos aqueles que entregam seu dinheiro a eles. Por essas e outras razões, não vejo mais como enquadrá-los no versículo acima, já que desprezam a graça de Deus e são manifestamente contra o verdadeiro evangelho de Cristo e contra nós, que compomos o Corpo de Cristo universalmente reunido, independentemente da denominação cristã em que estão.

Talvez alguém possa objetar que pessoas se convertem nessas igrejas. Eu também não tenho dúvidas disso, porque já vi pessoas se convertendo nos lugares mais improváveis, inclusive estudando com seguidores de religiões que nada tinham de cristãs, mas que nelas despertaram o interesse pelo Deus verdadeiro. Afinal, "buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração" (Jeremias 29:13). Outra objeção que pode ser levantada contra a minha percepção da situação, é a de que, ainda que maneira meio capenga, fragmentos do evangelho são pregados nessas igrejas. Refuto esta opinião recorrendo à jumentinha de Balaão (Números 22), grande pregadora daqueles tempos. Muitos séculos depois, ao entrar triunfalmente em Jerusalém, também montado num jumentinho, sendo criticado pelos fariseus quanto ao barulho que o povo fazia, Jesus lhes disse que se eles se calassem, até as pedras clamariam (Lucas 19:40). Ora, Se Deus falou através de uma jumenta, Ele pode falar através de quem (ou do que) Ele quiser, logo a crítica não procede. Portanto, não tenho dúvidas de que pessoas honestas e corretas podem se converter nessas igrejas. Só tenho uma dúvida cruel quanto a isso: depois de realmente convertidas, elas continuam lá?

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