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Há muitos anos, protestantes e católicos debatem sobre a intercessão de santos. Por isto não é de se surpreender que recentemente, na tentativa de se responder à posição protestante (e bíblica, já que são estas as palavras de Paulo) de que há só um mediador (1Tm 2:5), um padre em um vídeo muito comentado recentemente, chama os protestantes de orgulhosos. A lógica por trás deste ad hominem é que os protestantes rejeitam a ajuda de terceiros para orar. É muito simples responder a estas coisas, então provavelmente vários autores evangélicos já devem ter dado sua opinião. Ou talvez não tenham, por achar que o argumento é fraco demais para merecer uma resposta.
Pode alguém interceder por mim? Certamente todos devemos orar pelos irmãos, e há muitos textos bíblicos mostrando isto. Mas provavelmente eles não dizem para você entregar toda a responsabilidade de orar para o irmão, ou até mesmo fazer um pedido de oração, orando.
Sejam quais forem os argumentos usados para se defender ou para negar a intercessão dos santos, é interessante observar como alguns santos recomendavam às pessoas que os procuravam por ajuda, para orarem eles mesmos a Deus. Um exemplo que chama a atenção é o de Santo Antão, um pai do deserto, que vivia uma vida ascética. Por realizar muitos milagres, muitos o buscavam por ajuda. No livro A vida e conduta de Santo Antão, de Atanásio, há o registro de um homem que o buscou para que ele orasse a Deus por sua filha:
Antão livra do demônio a filha de um oficial
48. Assim retirado, tendo-se fixado algum tempo a passar sem sair nem receber ninguém, Antão foi importunado por certo Martiniano, oficial, cuja filha era atormentada pelo demônio. Esse homem permaneceu longo tempo batendo à sua porta e suplicando-lhe que viesse e orasse a Deus pela menina. Antão não quis abrir-lhe, mas inclinando-se do alto, disse-lhe: “Homem, por que gritas por mim? Sou um homem como tu. Mas se crês em Cristo, que eu adoro, vai, ora a Deus com fé, e tua súplica será ouvida”. Logo o homem acreditou, invocou a Cristo e partiu: sua filha estava purificada do demônio.
Cristo, que disse: “Pedi e vos será dado” (Mt 7,7), fez por meio de Antão muitas outras obras. A maioria dos que sofriam (e vinham) dormia do lado de fora de seu mosteiro, por que não lhes abria a porta. Eles acreditavam, oravam com ardor e eram purificados.
Santo Atanásio, Vida e Conduta de Santo Antão, Coleção Patrística, Editora Paulus, página 333.
E então este é um dos casos onde vemos um santo não recomendando a intercessão de santos, ou talvez, usando as palavras daquele padre, incentivando o orgulho. Obviamente o texto não é um texto sobre a intercessão de santos, e este conceito não havia na época. Mas por este trecho vemos que os cristãos daquela época não viam com bons olhos esta história de se buscar ajuda unicamente por terceiros.










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Comentários
Cristo, que disse: “Pedi e vos será dado” (Mt 7,7), fez por meio de Antão muitas outras obras. A maioria dos que sofriam (e vinham) dormia do lado de fora de seu mosteiro, por que não lhes abria a porta. Eles acreditavam, oravam com ardor e eram purificados."
Se o isolamento de Antão fosse realmente o motivo pelo qual ele se recusa a orar pela menina, então naturalmente ele teria dito isto. Sem falar que o homem já havia acabado com esta reclusão, e da mesma forma que ele respondeu ao homem, poderia muito bem ter feito a oração por sua filha.
No entanto, ele diz simplesmente que "Sou um homem como tu". Ou seja, qualquer ser humano tem a mesma chance de ser ouvido por Deus em sua oração. E esta igualdade, se não estou enganado, é que não combina muito com a doutrina da intercessão dos santos ensinada pelo catolicismo e que pode ser notada por trás do discurso do padre discutido no texto, quando ele acredita que buscar a Deus diretamente seja uma característica de pessoa orgulhosa (Antão estaria incentivando o orgulho dos cristãos ali?). Afinal, não seria apenas um pequeno grupo de cristãos considerados santos que seriam ouvidos por Deus?
Então, sua primeira pergunta é bem oportuna: "Qual a diferença entre Santo Antão ou o próprio Martiniano orar?". Exatamente!! Se estivermos considerando verdadeira a doutrina da intercessão dos santos, há uma enorme diferença entre Santo Antão e Martiniano. Há pessoas que foram consideradas "santos" e são dignos de fazer suas orações diretamente a Deus. Outras não... No entanto, parece que Antão não via problema em Martiniano, neófito ou não, orasse...
E se um neófito era ensinado a orar sozinho, sem a intercessão de um santo, o que dizer de alguém que já estava há mais tempo na fé?
Abraços.
Na verdade você se apega a uma parte menos relevante do texto. Essa recusa em orar pessoalmente pela menina é porque o santo estava recluso, algo bem típico de um monge.
No entanto o que se vê é que Santo Antão não diz que não pode orar, ele diz que ambos podem orar, e a oração não era pelo homem, mas sim pela filha dele, ou seja, o pai foi intercessor pela filha.
No catolicismo nós acreditamos na comunhão dos santos, você já deve conhecer esse assunto. É através dessa ligação entre Igreja Militante e Igreja Triunfante, em Cristo e através do Espírito Santo que os santos ficam cientes de nossos pedidos.
No entanto o fato dos Santos saberem aquilo que pedimos é outro assunto. Você com esse artigo apenas tenta refutar a intercessão, não a comunhão dos santos.
Abraços e Paz.
Claro que é um texto pró-intercessão. A pessoa vai até o santo (vivo) e pede ao santo que ore por ele, e o santo se recusa a fazer isto. Realmente é um relato muito favorável à intercessão dos santos. Ainda mais levando-se em conta que o santo recusa a intercessão com base no fato de que ambos são homens e ambos são capazes de orar a Deus, algo que o padre mencionado considerou orgulho.
Mas me diga, por que eu deveria considerar que meu pastor ou irmão vivo deve ser igualado aos santos que estão no céu, neste ponto? Quando eu peço ao pastor ou irmão, eu não peço a eles em meu quarto a quatro paredes. Eu vou até eles e peço. Será que depois de morrermos nós adquirimos onisciência?
Abraços.
No texto a minha impressão é a de que o oficial não era cristão ou era um neófito que não tinha uma fé bem estabelecida e o santo não podia sair de sua cela, pois estava fazendo penitencia e se saísse para um teria de sair para toda uma multidão.
De qualquer forma antes dos protestantes atacarem a intercessão não deveria haver traço desse costume entre os próprios acusadores.
Se tivesse sido apenas um empurrãozinho, provavelmente Antão não teria se recusado a orar pelo oficial. Muito menos teria dado como motivo para a recusa, o fato dele também ser homem.
Se fosse algum motivo temporário sua sugestão faria sentido. Ele poderia por exemplo dizer que estava incapacitado de orar naquela hora. Poderia também, para combinar com sua sugestão, dizer que ele precisava aprender a orar antes. Mas o motivo dado foi um motivo, digamos, "universal": ele era homem como Antão, e poderia fazer o mesmo que Antão.
Em comparação com o exemplo do padre que chama os protestantes de orgulhosos, Antão parece incentivar este orgulho... É um caso para se pensar.
Abraços.
Nós colocamos as fontes para que qualquer leitor do site possa encontrar o texto no livro de onde foi extraído. A página que fornecemos, portanto, é a página que o texto se encontra, nada mais do que isto.
Em segundo lugar, não somos gnósticos. Não tomamos qualquer número presente em um texto e damos um significado alegórico e místico, a menos que o texto nos dê evidências para fazer isto. Você ao pegar um simples número de página e atribuir a ele um significado que você experimentou está fazendo justamente aquilo que os primeiros cristãos enfrentaram. Então você deve tomar mais cuidado ainda.
Abraços.
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