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Foi a Tradição católica que definiu a doutrina da Trindade?

Escrito por  Gustavo
Atanásio de Alexandria

A doutrina da Trindade é uma doutrina fundamental da fé cristã e desde os primórdios do cristianismo, vem sendo atacada por vários grupos distintos. Por um lado, arianos, unitarianos, muçulmanos, espíritas, judeus, etc., questionam a divindade de Cristo e do Espírito Santo. Por outro lado, modalistas questionam o próprio conceito de hipóstase, fazendo Pai, Filho e Espírito Santo serem totalmente idênticos. O mais surpreendente, no entanto, é encontrar pessoas que deveriam defender a doutrina se alinhando aos críticos dela.

Tal é a posição de alguns católicos romanos, que resolveram concordar com todos estes grupos, declarando que a doutrina da Trindade não é claramente ensinada nas Escrituras, e que seu estabelecimento se deu unicamente por causa da tradição católica romana. O blog Movimento dos Amigos da Realeza de Cristo, por exemplo, argumenta:


A Doutrina de uma só Divindade em três pessoas distintas, O Pai, O Filho, O Espírito santo, a que chamamos de Santíssima Trindade, não consta claramente na Bíblia. Os Evangélicos tradicionais estabeleceram que ÚNICA REGRA PARA SE CRER EM UMA DOUTRINA é que esta conste na Bíblia, nas Sagradas Escrituras. Em todos os livros do Antigo Testamento não APARECE nem o nome e nem a doutrina de um Deus em Três pessoas. Também não há uma referencia clara sobre Deus trino em Pessoas, em todos os livros do Novo Testamento1.

O blog segue argumentando então que foi a Igreja Católica quem definiu a doutrina, pelas Escrituras:

Não há indicação da doutrina da Trindade, tal e qual foi definida pelos sucessivos concílios da Igreja. Foi a Igreja Católica, que iluminada pelo Espírito Santo percebeu nas Sagradas Escrituras a Revelação do mistério da Divindade, que ela mesma revelou, através do homem Jesus de Nazaré.

Assim, para o autor do texto, a Bíblia não é suficiente para definir a doutrina. E por isto ele argumenta que as diferenças de opinião entre os protestantes tradicionais e outros grupos heterodoxos como Testemunhas de Jeová ou espíritas, se dão exclusivamente por se basear apenas na Bíblia. Por fim, ele conclui que espíritas e testemunhas de Jeová são mais coerentes:

Mas os protestantes mais antigos crêem na Santíssima trindade citando unicamente à Bíblia. Da mesma forma os testemunhas de Jeová rejeitam a doutrina da Santíssima Trindade recorrendo unicamente à mesma Bíblia. Mesmo que não possa provar apenas pela Bíblia que esta doutrina esteja nela de forma explicita. Bastante clara.. Neste aspecto os Testemunhas de Jeová e os Espíritas são mais coerentes. Eles não crêem na doutrina da Trindade porque nem o nome Trindade e nem a definição "Há um só Deus em três pessoas" consta nas Sagradas Escrituras. Seguem literalmente a Bíblia como regra de fé.

Além de tudo isto, o site e-cristianismo foi citado como dando apoio à ideia de que a doutrina só foi definida no concílio de Niceia. Obviamente isto está longe de ser verdade, já que o trecho citado sequer declara aquilo que o autor do texto pretende defender.

Até o site Evangélico e-cristianismo (veja:http://www.e-cristianismo.com.br/pt/biografias/238-atanasio-de-alexandria-defensor-da-fe) reconhece que a divindade do Filho de Deus foi definida no Concilio de Nicéia e que Constantino pendeu para o arianismo.

Afinal de contas, a doutrina da Trindade foi mesmo definida pela tradição? Será que, de uma perspectiva católica, a Bíblia é tão ambígua que somente pela tradição a doutrina poderia ser defendida? É interessante como uma rápida olhada no catecismo católico nos mostra uma perspectiva bem mais otimista:

III. A Santíssima Trindade na doutrina da fé

A FORMAÇÃO DO DOGMA TRINITÁRIO

249. A verdade revelada da Santíssima Trindade esteve, desde a origem, na raiz da fé viva da Igreja. principalmente por meio do Baptismo. Encontra a sua expressão na regra da fé baptismal, formulada na pregação, na catequese e na oração da Igreja. Tais formulações encontram-se já nos escritos apostólicos, como o comprova esta saudação retomada na liturgia eucarística: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós» (2 Cor 13, 13)(62).

250. No decurso dos primeiros séculos, a Igreja preocupou-se com formular mais explicitamente a sua fé trinitária, tanto para aprofundar a sua própria inteligência da fé, como para a defender contra os erros que a deformavam. Foi esse o trabalho dos primeiros concílios, ajudados pelo trabalho teológico dos Padres da Igreja e sustentados pelo sentido da fé do povo cristão2.

Aqui, não apenas vemos que a doutrina esteve desde o princípio “na raiz da fé vida da Igreja” (ao invés de ser definida apenas em Niceia), mas que a Igreja, através dos primeiros concílios, tiveram o trabalho de formular mais explicitamente a fé trinitária (e não de formulá-la completamente). E enquanto o blog argumenta que:

Em todos os livros do Antigo Testamento não APARECE nem o nome e nem a doutrina de um Deus em Três pessoas. Também não há uma referencia clara sobre Deus trino em Pessoas, em todos os livros do Novo Testamento.

O próprio catecismo católico nos diz:

237. A Trindade é um mistério de fé em sentido estrito, um dos «mistérios ocultos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados lá do alto» (37) É verdade que Deus deixou traços do seu Ser trinitário na obra da criação e na sua revelação ao longo do Antigo Testamento. Mas a intimidade do seu Ser como Trindade Santíssima constitui um mistério inacessível à razão sozinha e, mesmo, à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo.

O que implica que, para a fé, este mistério fica mais claro com a Encarnação do Filho de Deus e a missão do Espírito Santo. Estas citações por si só demonstram que a posição adotada pelo autor do blog é extremista até mesmo dentro do catolicismo romano.

Por outro lado, é verdade que a doutrina da Trindade foi aceita unicamente com base na autoridade da igreja? É verdade que o livre exame das Escrituras foi o responsável pelo arianismo, como dá a entender o autor do texto?

Aliás, foi examinando a Bíblia por si mesmo, sem amparar-se na autoridade da Igreja que Ário, Bispo de Alexandria, criou a doutrina de que Jesus foi a primeira criatura de Deus e por Ele encarregado de criar as outras criaturas.

Os pais da igreja que estavam envolvidos na controvérsia com Ário não poderiam discordar mais desta declaração.

Alexandre foi o bispo de Alexandria, quando Ário começou a negar a divindade de Cristo. Ele foi também o primeiro adversário de Ário. Teodoreto reproduz em sua História eclesiástica uma carta de Alexandre de Alexandria ao bispo Alexandre de Constantinopla, onde ele dá sua opinião sobre os arianos:

Depois disto ninguém pode se admirar das falsas calúnias que eu estou a ponto de detalhar, meu amado irmão, propagadas por eles contra mim e contra nosso povo mais religioso. Eles não apenas estabelecem sua batalha contra a divindade de Cristo, mas ingratamente nos insultam. Eles acham ser indigno deles ser comparados a qualquer um dos velhos tempos, nem eles suportam ser colocados em pé de igualdade com os professores que estamos familiarizados desde a infância. Eles não admitem que qualquer de nossos colegas ministros em qualquer lugar possuam até mesmo uma inteligência medíocre. Eles dizem que eles mesmos são os sábios e os pobres, descobridores de doutrinas, e a eles apenas foram reveladas aquelas verdades que, dizem eles, nunca entraram na mente de qualquer outro indivíduo debaixo do sol. Ó, que ímpia arrogância! Ó, tolice excessiva! Que falsa ostentação, unida com a loucura e o orgulho satânico, endureceu seus ímpios corações! Eles não se envergonham de se opor à divina clareza das antigas Escrituras, nem ainda faz a piedade unânime de todos os nossos companheiros ministros sobre Cristo limitar a sua audácia. Nem demônios sofrem impiedade como esta, pois mesmo eles se refrém de blasfemar contra o Filho de Deus3.

Assim, para o bispo Alexandre, aqueles que lutam contra a divindade de Cristo se opõe à divina clareza das antigas Escrituras. Logo para ele, os arianos não são os mais coerentes.

Mas já que Atanásio foi citado como defensor da Trindade, podemos ver também na seção 4 de sua carta aos bispos do Egito, o que ele pensa sobre os hereges e o uso que eles fazem das Escrituras:

Pois de onde Marcião e os Maniqueus recebem o Evangelho enquanto rejeitam a Lei? Pois o Novo Testamento surge do Velho e dá testemunho do Velho. Se então eles rejeitam este, como podem eles receber o que procede dele? Assim Paulo era um apóstolo do Evangelho, ‘que Deus prometeu antes por Seus profetas nas sagradas Escrituras’ e nosso Senhor mesmo diz, ‘examinais as Escrituras, pois são elas que testificam de mim’. Como então eles confessam o Senhor a menos que primeiro examinem as Escrituras que foram escritas a respeito dele? E os discípulos dizem que eles encontraram aquele ‘de quem Moisés e os Profetas escreveram’. E o que é a Lei para os saduceus se eles não recebem os Profetas? Pois Deus que deu a Lei, Ele mesmo prometeu na Lei que Ele levantaria também os Profetas, de forma que o mesmo é Senhor tanto sobre a Lei quanto sobre os Profetas, e aquele que nega um deve por necessidade negar também o outro. E novamente, o que é o Velho Testamento para os Judeus, a menos que eles reconheçam o Senhor cuja vinda era esperada de acordo com ele? Pois se tivessem crido nos escritos de Moisés, eles teriam crido nas palavras do Senhor. Pois ele diz, ‘Ele escreveu de mim’. Além do mais, o que são as Escrituras para aquele de Samosata, que nega a Palavra de Deus e Sua Presença encarnada, que é significada e declarara tanto no Velho quanto no Novo Testamento? E para que servem as Escrituras para os arianos também, e por que eles as propõe, sendo homens que dizem que a Palavra de Deus é uma criatura, e como os gentios ‘servem a criatura mais do que’ Deus ‘o Criador’? Assim cada uma destas heresias, em respeito à peculiar impiedade de sua invenção, não tem nada em comum com as Escrituras. E seus defensores estão cientes disso, que as Escrituras são muito, ou melhor, completamente, contrárias às doutrinas de cada um deles. Mas para enganar os de tipo mais simples (tais quais são aqueles de quem está escrito nos Provérbios, ‘O simples acredita em toda palavra’), eles fingem como seu ‘pai o diabo’ estudar e citar a linguagem das Escrituras, para que eles possam parecer por suas palavras ter uma crença verdadeira, e assim poder persuadir seus pobres seguidores a acreditar no que é contrário às Escrituras. Seguramente em cada uma destas heresias o diabo tem então se disfarçado, e tem sugerido a eles palavras cheias de astúcia. O Senhor falou a respeito deles, que ‘se levantarão falsos Cristos e falsos profetas, de forma que enganarão muitos’. Consequentemente o diabo veio, falando por cada um e dizendo, ‘eu sou Cristo, e a verdade está comigo’. E ele os fez, um e todos, serem mentirosos como ele mesmo. E estranho é que enquanto todas as heresias são diferentes uma da outra a respeito das invenções perversas que cada uma forjou, elas são unidas somente pelo propósito comum de mentir. Pois eles possuem um e o mesmo pai que semeou neles todas as sementes de falsidade. Portanto o fiel cristão e verdadeiro discípulo do Evangelho, tendo graça para discernir coisas espirituais e tendo construído a casa de sua fé sobre a rocha, fica continuamente firme e seguro de seus enganos. Mas a pessoa simples, como eu disse antes, que não é perfeitamente fundado em conhecimento, tal como um que considera somente as palavras que são ditas e não percebendo seu significado, é imediatamente levado por seus enganos. Portanto é bom e necessário para nós orarmos para que nós possamos receber o dom de discernir espíritos, para que todos saibam, de acordo com o preceito de João, a quem devamos rejeitar e a quem devamos receber como amigos e da mesma fé. Agora pode-se escrever longamente sobre estas coisas, se alguém desejar entrar em detalhes com respeito a elas. Pois a impiedade e perversão das heresias parecerá ser múltipla e variada e a habilidade dos enganadores ser terrível. Mas já que as sagradas Escrituras são para todas as coisas mais do que suficientes para nós, recomendando então àqueles que desejam saber mais sobre estas matérias ler a Palavra Divina, eu agora me apresso a estabelecer perante vocês aquilo que mais demanda atenção e principalmente aquilo pelo qual eu escrevi estas coisas4.

Temos aqui um precioso texto de Atanásio, onde ele não apenas diz que os hereges (arianos incluídos) contradizem as Escrituras, mas diz também que eles sabem que as contradizem. Não bastando isto, Atanásio segue mencionando que as Escrituras são suficientes para todas as coisas e recomenda sua leitura.

Podemos então dizer que a doutrina da Trindade foi definida apenas pela Tradição da igreja católica? Pelo visto não. Os principais defensores da ortodoxia cristã contra Ário declaravam a clareza das Escrituras a respeito deste assunto. Assim, é de se surpreender que alguém que deveria defender a doutrina contra o ataque de hereges se alinhe ao pensamento deles.

Notas

1. O conteúdo completo pode ser acessado em http://realezadecristo.blogspot.com.br/2012/06/santissima-trindade-doutrina.html

2. Acessado em http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html

3. Carta de Alexandre, bispo de Alexandria, a Alexandre, bispo de Constantinopla, reproduzido por Teodoreto em sua História Eclesiástica. Texto traduzido de Philip Schaff, NPNF2-3, Teodoreto, Livro 1, Capítulo 3, que pode ser acessado no link http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf203.iv.viii.i.iv.html.

4. Atanásio, Carta aos bispos do Egito. Texto traduzido da obra de Philip Schaff, NPNF2-4, acessado em http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf204.xvii.ii.i.html

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