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"Salve Maria"! Uma saudação para reis?

Escrito por  Gustavo

maria e o anjo

Há algum tempo escrevemos nosso texto sobre Maria ser “cheia” de graça, e ficamos felizes por contribuir para enriquecer a discussão sobre o assunto. Obviamente surgiram várias respostas, muitas das quais já tratamos no próprio texto. Mas há algumas que precisam de maiores esclarecimentos, por isto resolvemos dar continuidade à discussão aqui.

Entre estas respostas, um vídeo1 chamou a atenção por apontar algo que não tínhamos visto previamente nesta discussão: que a saudação do anjo, “Salve Maria”, seria uma saudação direcionada exclusivamente para reis.


Salve: Uma saudação para reis?

O autor do vídeo faz a seguinte afirmação no minuto 19:25:

Não importa, o importante é que, como eles fazem a saudação, e Lucas quer passar isso, é o que, que quando o anjo está saudando Maria, ele está saudando a realeza de Maria… Por que ela ia se tornar rainha.

Aparentemente ele está se baseando em informações passadas a ele por outro católico, que ele apresenta aos 5:40 de vídeo. A informação que é apresentada é que χαιρε na verdade seria uma saudação exclusiva para reis e rainhas. Ele ainda acrescenta que a palavra é sempre usada para se dirigir a um superior, apontando para os textos onde os soldados zombam de Jesus, antes da crucificação.

Primeiramente, concordamos com o autor do vídeo no que diz respeito ao idioma. Lucas é o escritor inspirado e ele usou o grego para descrever o relato. Mudar o idioma não muda o fato do anjo fazer uma saudação e comunicar a Maria que ela daria a luz ao Filho de Deus.  Ninguém deveria argumentar que o anjo falou em aramaico para responder esta questão.

No entanto χαιρε não tem o significado que o autor do vídeo quer defender. A palavra usada pelo anjo é o imperativo de χαίρω, alegrar-se. O Léxico Grego-Português do Novo Testamento baseado em domínios semânticos, por exemplo, define a palavra quando usada para saudações como:

fazer uso de uma saudação formal, com a implicação de um voto de felicidade para a pessoa que recebe a saudação - “Salve!, viva!”2.

A BDAG também define a palavra quando usada em saudações da seguinte forma:

No imperativo, uma saudação formalizada desejando o bem a outro, também no indicativo, usar tal como uma saudação3.

A BDAG também adiciona no mesmo verbete que a saudação é frequente no encontro de pessoas, listando Homero, o Testamento de Abraão, etc., como exemplos do mesmo uso. Mas não há nenhuma indicação de que ela seja exclusiva para reis ou para superiores. Tanto é que, embora a fonte do vídeo nos diga que ela só é aplicada a reis, temos outros exemplos da mesma saudação sendo direcionada a pessoas comuns:

(Mt 28:9) E eis que Jesus veio ao encontro delas e disse: Salve! E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés e o adoraram.

Tirando a dúvida com o texto de Jerônimo, podemos ver que se trata mesmo da mesma saudação.

(Mt 28:9)  et ecce Iesus occurrit illis dicens havete illae autem accesserunt et tenuerunt pedes eius et adoraverunt eum

O termo é usado também em despedidas de cartas:

(2Co 13:11) Quanto ao mais, irmãos, adeus! Aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz estará convosco.

Assim, o termo não era usado da forma que alegam o autor do vídeo e sua fonte.

Cheia de Graça = Pura?

Mencionamos isto no texto anterior, mas de forma breve. Aparentemente esta é a confusão maior feita com o termo “cheia de graça”: achar que ser agraciada é ser pura, sem pecados, imaculada. Aliando esta confusão com a explicação que demos sobre o perfeito, o novo argumento foi formado: Maria teria sido “purificada” ou tornado-se “pura” no passado, e esta condição persiste até o momento que o anjo a visita.

Voltemos novamente ao verbo χαριτόω. O Léxico Grego-Português do Novo Testamento baseado em domínios semânticos o define como:

ser bondoso com alguém, com a implicação de que a pessoa bondosa faz isso gratuitamente – “ser bondoso com, ser gracioso com, conceder gratuitamente, graça, bondade”4.

A BDAG também define o verbo com as seguintes palavras:

Causar ser o recipiente de um benefício, dar favor a, favorecer amplamente, abençoar5.

Assim, o verbo quer dizer na verdade que alguém fez alguma bondade ou generosidade e alguém foi o recipiente desta… Como o particípio está no passivo, é Maria que foi a recipiente do favor, da bondade, da generosidade. O texto não fala que ela é pura, sem pecado. Ele diz que ela recebeu um favor.

Qual o favor recebido por Maria? O texto deixa isto bem claro:

(Lc 1:30-31) Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça (χαριν) diante de Deus, E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus.


A graça que Maria recebeu é a de ser a mãe de nosso Senhor, e o texto deixa isto bem claro. Note como Lucas usa uma palavra cognata para este fim.

Conclusões

Muitos dos argumentos oferecidos contra nosso primeiro texto envolviam o mau entendimento sobre o significado do verbo χαριτόω. Tanto é que o autor do vídeo que tratamos aqui explica o uso deste verbo em Eclesiástico como sendo aplicado a Jesus, o único que poderia ser considerado “cheio de graça”. O mesmo mau entendimento levou os católicos a tentarem explicar por que Estêvão estaria cheio de graça em Atos 6:8, onde a explicação que encontramos é que ele teve uma “graça temporária”, enquanto que Maria tinha uma graça “permanente”.

Não havíamos incluído o texto de Estêvão na discussão por que nosso primeiro texto explicava o tempo perfeito usado para a saudação de Maria e aqui não temos o perfeito. Mas é um texto muito interessante para a discussão. Afinal de contas, os católicos dão muita ênfase à palavra “cheia”, ao ponto de tentar explicar como ela se origina do tempo perfeito de χαριτόω. Mas aqui em Atos, o mesmo Lucas emprega literalmente a palavra “cheio” (πληρης), que é traduzido por Jerônimo como:

(At 6:8) Stephanus autem plenus gratia et fortitudine faciebat prodigia et signa magna in populo

Temos assim que Estêvão é chamado de “cheio de graça” tanto pelo autor inspirado quanto por Jerônimo, enquanto que Maria é chamada de “cheia de graça” somente por Jerônimo. No entanto, os católicos concluem que a graça temporária é a de Estêvão, não a de Maria… O que antes era justificado simplesmente pelo emprego da expressão “cheio(a) de ...” agora não é mais.

Esperamos então melhorar ainda mais as discussões sobre este tema, e que todos possam perceber que entender graça como um favor dado por Deus às pessoas é a interpretação mais coerente de todos estes textos.

Notas

1. O vídeo pode ser encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=prp8mrjOJxo

2. Léxico Grego-Português do Novo Testamento baseado em domínios semânticos, pág. 351. Sociedade Bíblica do Brasil.

3. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, pág. 1075.

4. Léxico Grego-Português do Novo Testamento baseado em domínios semânticos, pág. 667. Sociedade Bíblica do Brasil.

5. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, pág 1081.

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