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Suetônio e a historicidade de Cristo

Marcelo Berti analisa o testemunho de Suetônio sobre Jesus Cristo.

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Gaio Suetônio Tranquilo foi um historiador romano que também deve ser lembrado na pesquisa sobre a historicidade de Cristo. Gary Habermas em seu livro The Historical Jesus, afirma que "pouco se sabe sobre ele, exceto que ele era o secretário chefe do Imperador Adriano (117-138 dC) e que tinha acesso aos registros imperiais" (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.190).

Um dado interessante sobre Suetônio é que ele desenvolveu uma amizade com Plínio o Jovem, que o descreve como um homem "quieto e estudioso, um homem dedicado a seus estudos". Provavelmente em função desse relacionamento, que Suetônio recebeu favor de Trajano, de quem recebeu uma propriedade na Itália, e de Adriano, a quem serviu como secretário chefe.

Suetônio ocupa um lugar importante na história dos historiadores em função de suas biografias sobre doze Imperadores Romanos, de Júlio César a Domiciano, obra denominada De Vita Caesarum, escrito provavelmente durante o período de Adriano. Nessa mesma obra encontramos ao menos duas citações que nos interessam:


"Como os judeus, por instigação de Chrestus, estivessem constantemente provocando distúrbios, ele [Claudio] os expulsou de Roma" – (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.106)

Nessa citação encontramos a expressão "Chrestus", o que MacDowell notifica como uma "outra forma de escrever Christus", a versão latina do nome grego para Cristo, do mesmo modo que quase todos os comentaristas dessa expressão (cf. Habermas, Voorst, Geisler). Essa explicação é provavelmente proveniente do trabalho de Paulus Osorius em History against pagans 7.6, que apresenta uma variante textual para o mesmo trecho, substituindo o termo "Chrestus" por "Christus". Entretanto, Voorst nos lembra que a leitura mais difícil, que nesse caso é aquela primeiramente apresentada, é provavelmente a verdadeira (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.30).

A autenticidade da citação é plausível, se realmente faz referência a Cristo, em função de dois detalhes importantes: (1) Dificilmente um cristão não colocaria Cristo em Roma por volta do ano 49; e (2) certamente não ousaria chama-lo de causador de distúrbios. Também é importante notar que a fonte de Suetônio não é um cristão, pois seria difícil pensar que um cristão soletrasse equivocadamente o nome do seu Salvador.

Entretanto, a pergunta é mais importante é: Suetônio realmente fala de Cristo? A pergunta nasce no reconhecimento que o nome usado por Suetônio também era conhecido como um nome greco-romano, além do fato que parece estranho que Cristo estivesse em Roma, por volta do ano 49 dC. Entretanto, a maioria dos historicistas parece concordar que nessa citação encontra-se uma referência a Cristo, como o próprio ateu Andrew Norman Wilson atestou: "Apenas o mais perversos dos acadêmicos duvidaria que Chrestus é Cristo" (WILSON, A.N, Paul: The mind of the Apostle, Norton, 1997, pp.104; IN: VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.32). Contudo, essa convicção de Wilson tem fundamento? Acreditamos que sim.

Primeiro, a sentença latina que de onde se traduz essa frase é significativa: "Iudaeos (Os judeus) impulsore (instigação) Chresto assidue (sobre) tumultuantis (causam distúrbios) Roma expulit (foram expulsos)". O termo latino "impulsore" não deve ser traduzido como instigação, como vemos na tradução de MacDowell, mas como instigador, em função de sua relação apositiva com o substantivo Chresto com o qual concorda em gênero, número e caso. Portanto, a descrição não parece se referir a uma pessoa em si, mas a um título, que provavelmente Suetônio teria ouvido sem realmente conhecer. Outro detalhe que merece nossa atenção é que a grafia aqui é muito parecida com a de Tácito, outro escritor latino.

Segundo, não era incomum que o nome tanto dos cristãos como de Cristo fosse escrito de maneira equivocada no segundo século. Quem nos informa isso é Tertuliano quando discursa sobre o ódio contra os cristãos, que chega a ser considerado um nome criminoso. Feita essa declaração, Tertuliano afiram:

"Mas, cristãos, até onde se refere ao significado do termo, é derivado do ungido. Isso mesmo, e mesmo quando é erroneamente pronunciado por você como 'Chrestianus' (por que você nem mesmo sabe exatamente o nome que odeia), ele vem cheio de ternura e bondade. Portanto, você odeia inocentes, com um nome sem culpa" (Tertuliano, Apology, Cap. III; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 3, pp.20).

Considerando que era historicamente comum entre os falantes de latim que se confundisse a pronúncia do nome dos cristãos, não é estranho pensar que o mesmo equívoco tenha sido cometido por Suetônio. Entretanto, Tertuliano não é o único a lembrar desse fato, Lactantius também afirma:

"Mas, apesar de Seu nome, que o supremo Pai deu a Ele desde o princípio, não seja conhecido senão por Ele mesmo, ainda assim ele tem um nome entre os anjos e outro entre os homens, desde que é chamado de Jesus. Mas, Cristo não é um nome próprio, mas um título de Seu poder e domínio; pois assim é que os judeus estavam acostumados a chamar seus reis. Mas o significado desse nome deve ser declarado, em função do erro de ignorantes, que ao mudar uma letra, estão acostumados a chama-lo de Chrestus" (Lactantius, The Divine Institutes, Cap. VIII; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 7, pp.106).

Portanto, fica evidente que o equívoco encontrado em Suetônio não era incomum e incomodava os cristãos primitivos.

Terceiro, embora o nome Chrestus pudesse ser comum na cultura greco-romana, não é encontrada entre os judeus em Roma naquele período, de acordo com o que se conhece das inscrições das catacumbas e outros documentos. Sobre isso, D. Noy atesta que essa ausência é baseada no fato de que tal nome era aplicado normalmente a escravos, o que teria causado certa repulsa nos judeus (NOY, D, Jewish Inscriptions of Western Europe, Vol.2 The City of Rome, Cambridge University Press, 1995).

Por fim, devemos considerar ainda uma questão: Se Suetônio se refere a Cristo, não seria estranho pensar que Cristo estivesse pessoalmente em Roma, incitando uma rebelião contra Roma? A resposta a essa pergunta é na verdade não. Se a referência é realmente feita a Cristo, como um título e não como uma pessoa, não era necessário que Ele estivesse por lá, além do mais, essa declaração pode corroborar a declaração de Lucas de que "Claudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma" (At.18.2). Sobre isso, Geisler atesta:

"Suetônio ao escrever muitos anos mais tarde, não estava na posição de saber se os tumultos eram provocados por Chrestus ou pelos judeus contra seus seguidores. De qualquer forma, Cláudio ficou aborrecido o suficiente para expulsar todos os judeus da cidade (inclusive os companheiros de Paulo, Áquila e Priscila) em 49" (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.449).

Já a segunda declaração de Suetônio é menos controversa: "Nero infligiu castigo aos cristãos, um grupo de pessoas dadas a uma superstição nova e maléfica" (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.106). É provável que essa nova superstição maléfica seja a pregação primitiva a respeito da ressurreição de Cristo.

E o que aprendemos com Suetônio a respeito da historicidade de Cristo? Primeiro, ele relaciona a expulsão dos judeus de Roma, e que também atesta de que Cristo é que incitou os judeus a causar distúrbios em Roma, além de concordar com Tácito com relação ao conceito que a fé cristã tinha em face aos romanos e além do uso normal do termo cristão para se referir a essa fé.

Fonte: http://marceloberti.wordpress.com/2011/05/02/suetonio-e-a-historicidade-de-cristo/

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Comentários  

 
0 #1 RE: Suetônio e a historicidade de CristoIvani Medina 21-09-2012 11:14
Trecho da carta do imperador Adriano (117-138) a seu cunhado o cônsul Serviano.
“Queridíssimo Serviano, o Egito que tanto elogiavas parece-me ser leviano, vacilante e borboleteador entre os rumores de cada momento. Os que adoram a Serápis são cristãos. E os que dão o título de bispos de Cristo são devotos de Serápis. Não há chefe da sinagoga dos judeus, nem samaritano, nem presbítero cristão, que não seja também numerólogo, adivinho e saltimbanco. São gente altamente sediciosa, vã e injuriosa, e sua cidade é rica, opulenta, fecunda. Nela ninguém está ocioso. Uns sopram vidro, e outro fabricam papel, e todos parecem ser tecedores de linho ou têm algum ofício. Têm trabalho os reumáticos, os mutilados, os cegos e até os inválidos. O único deus de todos eles é o dinheiro, a quem adoram os cristãos, os judeus e toda classe de pessoas” (GONZALEZ, 2003, p.117).
Serápis foi um deus criado por encomenda de Ptolomeu I Soter (Salvador), para unir gregos e egípcios. Do lado grego, reunia atributos de Zeus, Helio, Dionísio, Hades e Asclepio. Aproximava-se de Dionísio e das religiões de mistérios, sincretismo evidente no cristianismo do Novo Testamento, muito comentado na metade do século XX por estudioso e teólogos liberais. Do lado egípcio, identificava-se com as divindades Osíris, associada à vegetação e a vida no além, e Ápis, antiga divindade agrária representada por um touro negro.
O título Cristo era a forma grega para apalavra egípcia “karast” que significa ungir o defunto com óleo perfumado, em preparação para o funeral. Essa unção era utilizada no culto de Osíris, que visava manter o corpo conservado para a outra vida. Os gregos incorporaram essa prática ao culto sincrético de Serápis. Após sua morte, Serápis tornou-se o ungido ou Karast, deus dos mortos e do submundo. Por isso os adoradores desse deus eram chamados de cristãos. O cristianismo do NT seria a forma derradeira desse cristianismo mais antigo de origem pagã.
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