• Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.

    Mateus 5:44,45

  • Disse-lhes ele: Por causa da vossa pouca fé; pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível

    .

    Mateus 17:20

  • Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre?

    Lucas 15:4

  • Então ele te dará chuva para a tua semente, com que semeares a terra, e trigo como produto da terra, o qual será pingue e abundante. Naquele dia o teu gado pastará em largos pastos.

    Isaías 30:23

  • As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;

    João 10:27

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Verso do dia

Tertuliano defendia a Trindade?

Escrito por  Gustavo
Tertuliano

Seu nome era Quintus Septimus Florens Tertullianus, primeiro pai da igreja latina e como tal, se envolveu nas mais variadas disputas. Destas, talvez a mais conhecida seja a disputa contra Práxeas, que gerou um dos primeiros tratados sobre a Trindade, contra a doutrina dos modalistas ou patripassionistas.

Assim, poderia parecer estranho perguntar se Tertuliano defendia a Trindade. Poderia.

Há hoje aqueles que levantam esta pergunta, e de alguma forma demonstram que Tertuliano não deveria ser contado como defensor da doutrina da Trindade. Há uma observação a ser feita aqui: quando se fala em doutrina da Trindade, se está referindo na verdade à doutrina estabelecida pelos concílios de Nicéia e Constantinopla. Então, a pergunta feita aqui é: A doutrina trinitária de Tertuliano é ortodoxa?

É grande o interesse nesta questão por parte dos críticos da doutrina da Trindade. Há sempre a tentativa de se atribuir a origem desta doutrina ao próprio concílio de Nicéia, geralmente destacando-se também a participação do imperador “pagão” Constantino. Tertuliano porém se torna um forte contra-argumento a esta explicação. Para restaurar a antiga explicação, é necessário minar a ortodoxia do tratado de Tertuliano, diluir sua mensagem. É preciso evitar que aquilo que ele queria dizer seja explicado.

Defendo a doutrina da Trindade. Mas defendo também a memória do autor, que tinha crenças, ideias e intenções. Estamos portanto diante de uma oportunidade extraordinária de entender como este brilhante escritor cristão pensava sobre estes assuntos.

Demolindo a ortodoxia de Tertuliano

A doutrina trinitária de Tertuliano é ortodoxa? Algumas palavras de Tertuliano parecem indicar que não. O texto do credo de Nicéia diz “E quem quer que seja que disser que houve um tempo que o Filho de Deus não era, ou que antes de ser gerado ele não era, ou que ele foi feito de coisas que ele não era, ou que ele era de diferente substância ou essência [do Pai] ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou conversão - todos que dizem assim, a Igreja Católica Apostólica o anatematiza”. Tertuliano porém diz em alguns lugares:

Mas quanto a mim, que deriva o Filho de nenhuma outra fonte que não a substância do Pai” - Contra Práxeas, capítulo 4.

“…mesmo antes da criação do universo Deus não estava sozinho, desde que ele tinha em Si próprio tanto Razão e, inerentemente à Razão, Sua Palavra, que Ele (Deus) fez outro em Si por agitá-la em Si mesmo ” - Contra Práxeas, capítulo 5.

Ele me criou e me gerou em Sua própria inteligência” - Contra Práxeas, capítulo 6.

Este é o perfeito nascimento da Palavra, quando Ela procede de Deus – formada por Ele primeiro” - Contra Práxeas, capítulo 7.

gerado por Deus, de uma forma peculiar a Si mesmo, do útero de Seu próprio coração” - Contra Práxeas, capítulo 7.

Ele se tornou então o Filho de Deus, e foi gerado quando Ele procedeu d’Ele” - Contra Práxeas, capítulo 7.

Ele fez de Sua Palavra um Filho para Si mesmo” - Contra Práxeas, capítulo 11.

Sua primeira declaração é de fato feita, quando o Filho não havia aparecido ainda” - Contra Práxeas, capítulo 12.

nós reconhecemos o Filho como sendo visível em razão da dispensação da Sua existência derivada” - Contra Práxeas, capítulo 14.

e naquele princípio Ele foi prolatado pelo Pai” - Contra Práxeas, capítulo 19.

Agora, por dizer ‘o Espírito de Deus’ (apesar de que o Espírito de Deus é Deus,) e por não nomear diretamente Deus, ele quis que fosse entendida aquela porção de toda a divindade, que estava prestes a se retirar para a designação de ‘Filho’. O Espírito de Deus nesta passagem deve ser o mesmo que a Palavra” - Contra Práxeas, capítulo 26.

Pois ele não poderia ser o Pai antes do Filho, nem um Juiz antes do pecado. Houve, então, um tempo quando nem o pecado existiu com Ele, nem o Filho; o primeiro constituindo o Senhor um Juiz, e o último um Pai”. - Contra Hermógenes, capítulo 3

De fato, assim que Ele percebeu que Ele era necessário para Sua criação do mundo, Ele imediatamente O criou, e O gerou em Si mesmo”. - Contra Hermógenes, capítulo 18.

É esta linguagem de Tertuliano que tem despertado a atenção de vários críticos. Tertuliano estaria assim defendendo que houve um tempo que não havia o Verbo, algo que posteriormente Ário defenderia. Tertuliano falava sobre geração do Verbo. À primeira vista então, Tertuliano não seria ortodoxo.

Declarações contraditórias

Há, no entanto, algumas declarações curiosas dentro deste mesmo tema. No capítulo 27 de Contra Práxeas, Tertuliano diz:

Quanto ao demais, nós precisamos necessariamente crer que Deus seja imutável, e incapaz de reduzir-se a uma forma, por ser eterno. Mas a transfiguração é a destruição daquilo que existia previamente. O que quer que seja que se transfigure em alguma outra coisa, cessa de ser aquilo que tinha sido até então, e começa a ser aquilo que previamente não era. Deus, entretanto, não só não cessa de continuar sendo o que Ele já era, como também não pode Ele ser qualquer outra coisa além daquilo que Ele já é. O Verbo é Deus, e "a Palavra de Deus permanece para sempre", mesmo mantendo-se imutavelmente na Sua própria forma.

Aqui, Tertuliano declara que o Verbo é Deus. No entanto, antes mesmo desta declaração, Tertuliano deixa claro qual o seu conceito de divindade: Deus é imutável. Deus é eterno. Portanto Tertuliano não só declara a divindade do Verbo, mas declara também que este mesmo Verbo é eterno e imutável. Declaração esta que poderia ser considerada totalmente contraditória, tendo em vista as declarações feitas acima.

No mesmo livro, Tertuliano declara:

Assim Ele o faz igual a Ele...” - Contra Práxeas, capítulo 7.

No mesmo capítulo onde Tertulino diz que o Filho tem um perfeito nascimento e que ele é gerado, Tertuliano diz também que este Filho é igual ao Pai. Outra vez temos aqui uma declaração que contraria tudo que foi exibido acima.

A declaração que se segue é muito próxima da declaração do concílio de Nicéia:

Estes três são uma essência, não uma Pessoa, como é dito, "Eu e meu Pai somos Um," em respeito à substância não singularidade de número. - Contra Práxeas, capítulo 25.

Ela se aproxima das declarações do concílio de Nicéia ao declararem três pessoas em uma essência.

Em outro lugar ele diz também:

Além disto, Ele estava só, porque não havia nada externo a Ele além de Si mesmo. Mas nem mesmo naquele momento Ele estava só, pois Ele tinha consigo aquilo que Ele possuía em Si mesmo, a saber, sua própria Razão. Pois Deus é racional, e a Razão estava no princípio n'Ele, e assim todas as coisas eram d'Ele. Esta Razão é seu próprio Pensamento (ou Consciência) a qual os gregos chamam λόγος, pelo qual nós também designamos Palavra ou Discurso e assim é comum a nosso povo, devido à mera simples interpretação do termo, dizer que a Palavra estava no princípio com Deus; apesar de ser mais apropriado considerar Razão como mais antiga, porque Deus não tinha Palavra do princípio, mas ele tinha Razão mesmo antes do princípio, porque também a própria Palavra é constituída de Razão, o que prova assim esta como tendo existência anterior, sendo a própria substância daquela. - Contra Práxeas, capítulo 5.

Tertuliano aqui, falando sobre o princípio do tempo, declara que a Razão divina acompanhava Deus. Certamente Tertuliano pensava no prólogo de João, que declarava que o Verbo estava com Deus, por isto traduzindo o termo pensamento para o grego λόγος, palavra usada por João ao se referir à Cristo. E discutindo sobre esta Razão, Tertuliano vai comentar que ela estava com Deus mesmo antes do princípio, algo que sempre foi interpretado como indicativo da eternidade do Verbo. Mesmo tomando-se apenas o conceito de Razão, não poderíamos concluir algo diferente, pois do contrário estaríamos defendendo que houve um tempo que Deus não tinha razão, o que seria algo completamente absurdo.

Tertuliano faz ainda declarações claramente ortodoxas, prevendo Concílios mantidos no sexto século. Aqui, Tertuliano faz declarações sobre as duas naturezas de Cristo:

Assim a natureza das duas substâncias exibem Ele como homem e Deus – em um respeito nascido, no outro não nascido; em um respeito carnal, no outro espiritual; em um sentido fraco, em outro excessivamente forte, em um sentido morrendo, no outro vivendo. – Da carne de Cristo, capítulo 5.

É surpreendente como Tertuliano consegue descrever perfeitamente a pessoa de Cristo segundo os padrões adotados pelo concílio de Calcedônia, declarando Cristo como homem e Deus, sem mistura ou confusão de naturezas.

E é surpreendente ver como estas declarações aqui contrastam com aquelas feitas acima. Diante destas declarações, não podemos simplesmente tomar algumas declarações deste destacado escritor cristão e declarar que elas refletem seu pensamento. Fazer isto seria simplesmente ignorar seu pensamento e sua interpretação bíblica apenas para sustentar nosso ponto de vista.

Como vamos interpretar então estas declarações? Vamos sustentar que Tertuliano era um escritor contraditório? Como explicaríamos sua influência então? Como explicaríamos que tal escritor se tornasse bispo?

Se temos realmente apreço pela verdade e principalmente respeito pelo escritor, devemos buscar as respostas nos conceitos adotados por Tertuliano. Devemos contextualizar seus escritos. Devemos entender quem é Tertuliano.

Influências de Tertuliano

Se devemos entender Tertuliano, o primeiro passo é definir quais as fontes para sua teologia. E isto pode muito bem ser encontrado no livro de Justo Gonzalez, Uma história do pensamento cristão, Volume 1, páginas 169 e 170:

As fontes para a teologia de Tertuliano devem ser encontradas na tradição cristã, no treinamento legal que ele provavelmente teve e em seu background filosófico. Não há dúvidas de que grande parcela da teologia de Tertuliano foi extraída diretamente da tradição cristã tal como encontrada nos apologistas gregos, em Ireneu e em Hermas. No que diz respeito à sua formação legal, Tertuliano nunca a abandonou: seus argumentos não procuram convencer, mas sobrepujar; quando parece que ele está encurralado por seus oponentes, encontra uma saída por meio da retórica; para ele, o evangelho é uma nova lei; sua argumentação em defesa do Cristianismo é uma argumentação legal e o mesmo pode ser dito com relação a sua argumentação básica contra os hereges; além de tudo isso, alguns eruditos declaram que sua doutrina trinitariana é expressa em termos legais. Finalmente, embora Tertuliano explícita e repetidamente rejeite toda intromissão da filosofia em questões de fé, é um fato que – talvez mesmo sem ter consciência disso – ele mesmo, com frequência, mostra-se influenciado pelo estoicismo e até mesmo fala de Sêneca em termos tão elogiosos que quase contradiz sua rejeição geral à filosofia pagã.

Justo Gonzalez fala da influência legal na teologia de Tertuliano, principalmente no que diz respeito à sua defesa da doutrina da Trindade. O que chama a atenção aqui é a influência do estoicismo em sua teologia.

O Dicionário de Patrística e Antiguidades Cristãs explica como se dava a influência estóica na teologia cristã:

A influência estóica diz respeito à terminologia, transferida para o pensamento cristão, e aos conceitos, que podem ser adaptados a expressar verdades cristãs, e que às vezes são acolhidos e inseridos no tecido da doutrina cristã. Outras vezes, a referência à Stoá consiste no tom geral, que reflete a orientação espiritual e o otimismo estóico.

Vemos aqui então que uma das formas de influência do estoicismo se dava através dos conceitos e terminologia. Um dos conceitos mais explorados pelo cristianismo antigo era o conceito do Logos. Neste ponto o estoicismo possuía um ensino peculiar.

Logos Endiathetos e Logos Prophorikos

No estoicismo, o Logos é dividido em dois tipos: o logos endiathetos e o logos prophorikos. Adam Kamesar, tratando desta distinção nas obras de Filo de Alexandria, explica o conceito envolvido nesta divisão:

Filo de Alexandria tem há muito tempo sido reconhecido como o autor mais antigo a prover testemunho extensivo sobre a doutrina do logos endiathetos e logos prophorikos, primeiramente formulada, com toda probabilidade, pelos estoicos. A doutrina em sua forma original foi concebida com referência ao logos no homem, e não ao logos cósmico. Simplesmente declarando, ela confere uma distinção entre o “logos interno” e o “logos pronunciado”. Nós racionalizamos em nós mesmos, ou seja, em nossas mentes, através do primeiro, mas nós expressamos nossos pensamentos na fala através do último. Os dois logoi são intimamente ligados, porque a palavra expressa é o veículo que entrega para o exterior o produto da obra da razão interna. Apesar de haver antecedentes à distinção tanto em Platão quanto Aristóteles, a terminologia característica é atestada somente posteriormente, e em tempos imperiais a teoria foi atribuída aos filósofos da Stoa. Consequentemente, a maioria dos eruditos acreditam que a elaboração da doutrina foi uma realização daquela escola. - Adam Kamesar, The Logos Endiathetos and the Logos Prophorikos in Allegorical Interpretation: Philo and the D-Scholia to the Iliad

Para os estoicos, o logos se dividia em dois: o logos interno, aquele da nossa razão, e o logos expresso, ou aquele que se constitui em nossa fala.

Vimos que Tertuliano demonstrava certa influência dos estoicos. Vimos também que esta influência se dava através de conceitos empregados pelos cristãos. Resta saber se Tertuliano empregava este conceito de logos, ensinado pelos estoicos.

Tertuliano e os dois conceitos de logos

Harold F. Carl, analisando a doutrina trinitária de Tertuliano e o quanto ela avançou, explica como se interpreta a linguagem de Tertuliano sobre a geração do Verbo:

Tertuliano parece promover uma eterna possessão da Palavra e Razão, e no entanto ao mesmo tempo uma geração ou emissão no tempo. Osborn explica isto como uma “exploração inteligente” da distinção estóica entre a palavra interna e a expressa. Deus sempre possuiu a Palavra internamente, mas nem sempre falou. Mas a razão interna e a palavra falada são sempre essenciais uma para a outra. - Harold F. Carl, Against Praxeas – How far did Tertullian advance the doctrine of the Trinity?

Assim, é o conceito de logos endiathetos e logos prophorikos que Tertuliano apresenta em sua teologia, e que gera confusão para os seus leitores modernos. Outras fontes concordam que Tertuliano usa este conceito em sua teologia. A Enciclopédia Católica diz, por exemplo:

Sobre a importante questão da geração do Verbo, a ortodoxia dos Apologistas é irreprovável: o Verbo não foi criado, como os Arianos mantiveram posteriormente, mas nasceu da mesma Substância do Pai de acordo com a definição posterior de Nicéia (Justino, Diálogo com Trifo 128; Taciano, "Or.", v; Atenágoras, Um pedido pelos Cristãos 10-18; Teófilo, "Ad Autolyc.", II, x; Tertuliano, "Adv. Prax.", vii). Sua teologia é menos satisfatória a respeito da eternidade desta geração e sua necessidade; de fato, eles representam o Verbo como expresso pelo Pai quando o Pai desejou criar e em vista de sua criação (Justino, "II Apol.", 6; cf. Diálogo com Trifo 61-62; Taciano, "Or.", v, um texto corrompido e duvidoso; Atenágoras, Um pedido pelos Cristãos 10; Teófilo, "Ad Autolyc.", II, xxii; Tertuliano, "Adv. Prax.", v-vii). Quando nós buscamos entender o que eles queriam dizer por “expressar”, é difícil dar a mesma resposta para todos. Atenágoras parece querer apontar para o papel do Filho na obra da criação, o syncatabasis dos Pais Nicenos (Newman, "Causes of the Rise and Successes of Arianism" em "Tracts Theological and Ecclesiastical", London, 1902, 238), outros, especialmente Teófilo e Tertuliano (cf. Novaciano, Sobre a Santa Trindade 31), parece certamente entender este “expressar” como propriamente dito. Sobrevivência mental da psicologia estóica parece ser responsável por esta atitude: os filósofos do Portico distinguiam entre a palavra interna (endiathetos) e a palavra expressa (prophorikos) mantendo em mente esta distinção os mencionados apologistas conceberam um desenvolvimento na Palavra de Deus seguindo o mesmo estilo. Depois deste período, São Ireneu condenou muito severamente estas tentativas de explicação psicológica (Contra Heresias II.13.3-10, cf. II.28.4-6), e os Pais posteriores rejeitaram esta infeliz distinção entre o Verbo endiathetos e prophorikos [Atanáso (?), "Expos. Fidei", i, em P.G., XXV, 201-cf. "Orat.", II, 35, em P.G., XXVI, 221; Cirilo de Jerusalém, Palestras Catequéticas IV.8; cf. Palestras Catequéticas XI.10; cf. Concílio de Sirmium, can. viii, em Atan., "De Synod.", 27-P.G., XXVI. - Enciclopédia Católica, verbete The Logos.

De forma similar, a Nova Enciclopédia Católica diz:

Era algo comum para tais escritores distinguir entre a razão eterna ou palavra mental de Deus e sua expressão externa (Teófilo no lugar citado; Justino no lugar citado nos Diálogos; Tertuliano em Contra Práxeas 6-8, Corpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum 47:233 e seguinte; Hipólito, Noët. 10, Patrologia Graeca 10:818). Aqui não se pode deixar de notar a semelhança definida com o λόγος ἐνδιάθετος-προφορικός da filosofia contemporânea, particularmente o estoicismo. A processão imanente do Logos na Divindade e Sua missão temporal são intimamente relacionadas; a criativa-redentiva οἰκονομία não está divorciada daquela dentro da Deidade. Se por um lado a figura unificada assim obtida é uma vantagem decidida, há também uma dificuldade. O processo de salvação cósmico ameaça ser um elemento necessário na divina origem do Logos. Tais esforços teológicos não eram recebidos entusiasticamente por todos mesmo naquela época. (Ireneu, Haer. 2.28.6; Harvey 1:355).

Assim, Tertuliano de fato afirmava a eternidade do Verbo. Ele afirmava três pessoas em uma essência. No entanto, a teologia de Tertuliano a respeito da geração do Filho não é a mesma empregada pelos pais em Nicéia. Para ele, esta geração aconteceu no tempo, enquanto que para os pais nicenos a geração é eterna. No capítulo 5 de Contra Práxeas, ele aplica o conceito estóico de logos para demonstrar que Deus estava só, por não possuir nada externo a Ele, sendo que ao mesmo tempo estava acompanhado de sua Razão.

Como foi dito, nem todos concordavam com esta teologia. Ireneu, citado pelos dois textos acima, discordava da explicação psicológica desta geração, pois alguns gnósticos se baseavam nela para explicar as próprias emanações dos aeóns. Já para os pais da igreja nicenos, esta linguagem foi usada por Paulo de Samosata com relação a Jesus, implicando que a Palavra era impessoal, sendo concebida como uma atividade particular de Deus.

Importante é que para Tertuliano, o Logos era eterno. Esta é uma doutrina ortodoxa, e o uso do conceito estóico por parte de Tertuliano visava justamente conciliar a eternidade do Verbo com o fato das Escrituras atribuírem o status de gerado a este mesmo Verbo. Devemos lembrar que o conceito de geração empregado em Nicéia não era o ponto em discussão, esta mesma geração foi discutida por muito tempo. O que é importante frisar é que assim como os pais nicenos, Tertuliano defendeu a eternidade do Verbo.

Tendências subordinacionistas

Observa-se também tendências subordinacionistas nos escritos de Tertuliano. Sobre este ponto, Justo Gonzalez trata em seu livro sobre a História do Pensamento Cristão:

Na medida que progride na leitura de Tertuliano, torna-se mais clara sua tendência em enfatizar a distinção entre as pessoas da Trindade, mesmo às custas de sua unidade essencial. No Capítulo 9 deste mesmo tratado Contra Práxeas, encontramos que “o Pai é a substância toda, mas o Filho é uma derivação e uma porção do todo”, e que a distinção entre o Pai e o Filho significa que um é invisível e o outro visível. Em Contra Hermógenes, é nos dito também que houve um tempo em que o Filho não existia. Estas afirmações estabeleceram uma distinção entre o Pai e o Filho que mais tarde seria considerada heterodoxa. Com base nestes e em outros textos, Tertuliano foi acusado de subordinacionismo. E é verdade que há tal tendência em seu pensamento. Mas deve-se lembrar que o próprio propósito de Contra Práxeas naturalmente levaria Tertuliano a enfatizar a distinção entre o Pai e o Filho em vez de sua unidade. Além disso, seria injusto esperar de Tertuliano uma precisão que não apareceria na história do pensamento cristão antes de longas e amargas controvérsias. Por estas razões, suas inegáveis tendências subordinacionistas não devem obscurecer o gênio de Tertuliano em preanunciar a fórmula básica que a igreja Ocidental adotaria por muitos séculos a fim de expressar a natureza triuna de Deus. - Uma história do pensamento Cristão, volume 1, página 176.

Assim, é inegável que Tertuliano tivesse tendências subordinacionistas. Mas estas tendências não conseguem diminuir a genialidade de Tertuliano, pois ele preanunciou a fórmula básica para exprimir a natureza triuna de Deus. Suas tendências subordinacionistas podem ser explicadas pela natureza do tratado que estava escrevendo.

De forma parecida, alguns escritores cristãos antigos demonstravam as mesmas tendências, entre eles, Justino, Orígenes, Novaciano e Ireneu. Não foi contra este subordinacionismo que Nicéia reagiu, como explica o Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs:

Na polêmica com os monarquianos, o subordinacionismo tendia a radicalizar-se, porque a inferioridade do Filho era acentuada a fim de realçar melhor sua distinção em relação com o Pai, que aqueles negavam. Foi este o caso de Dionísio de Alexandria e sobretudo de Ário: enquanto o moderado subordinacionismo de seus predecessores não havia posto em dúvida que Cristo fosse Filho real de Deus e partícipe de sua natureza divina, Ário o considerava criado, mais do que gerado, estranho à natureza do Pai e, por isto, de natureza divina de segunda ordem. Justamente para reagir contra este radical subordinacionismo, os teólogos antiarianos, sobretudo Atanásio e depois os Capadócios, eliminaram todo vestígio de subordinacionismo entre as três Pessoas divinas e as consideraram iguais entre si por natureza e dignidade. - Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, verbete Subordinacionismo.

O subordinacionismo combatido pelos pais nicenos era o subordinacionismo radical, que transformava a divindade de Cristo em uma divindade de segunda ordem. Não era isto que Tertuliano fazia, nem os outros pais da igreja.

E de fato, o mesmo Dionísio mencionado pelo dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs foi defendido por Atanásio contra os arianos, que diziam que ele defendia a mesma posição deles. Ao fazer esta defesa, Atanásio alegava que Dionísio, diferentemente de Ário, não separava as naturezas do Pai e do Filho, como Ário fazia.

http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf204.xv.ii.html

O mesmo poderia ser dito de Tertuliano, que defendeu a fórmula básica da Trindade de três pessoas em uma natureza. Certamente suas opiniões não eram exatamente iguais às opiniões dos pais nicenos. No entanto, elas não eram condenadas por eles.

Reconstruindo a ortodoxia de Tertuliano

Tertuliano defendeu a geração do Verbo de forma diferente dos pais nicenos, e demonstrou uma tendência subordinacionista. Este é o resumo das diferenças do ponto de vista deste pai da igreja em relação aos pais nicenos.

Depois de Tertuliano, a igreja iria definir que a geração do Verbo é uma geração eterna, e que a subordinação do Verbo se dá através da natureza humana de Cristo. Percebemos então que a linguagem dos pais nicenos foi melhor desenvolvida para evitar radicalismos.

Mas a Trindade não deveria ser uma doutrina defendida pelos apóstolos? Sim, todos os elementos necessários a seu entendimento estão ali, em nossas Bíblias. Deus revelou tudo que precisamos na Bíblia, e é a Bíblia que os pais da igreja interpretavam.

É o verbo interpretar que é a palavra-chave para esta questão. Os pais da igreja não eram escritores inspirados, eles eram interpretes falíveis da Palavra. Não poderíamos esperar que todos tivessem os mesmos conceitos e palavreado. Não poderíamos esperar que eles concordassem em tudo. Mas a história de Tertuliano mostra que eles concordavam no essencial: que Cristo é Deus, que o Espírito Santo é Deus, e que o Pai é Deus, e os três não são três deuses, mas um só Deus.

Eles não tinham ainda palavras para descrever isto, mas descreviam. Eram imprecisos, usavam conceitos que mais tarde foram mal usados. E foi por causa de suas explicações que o vocabulário teológico evoluiu. Hoje devemos muito a eles por isto. Na escada do avanço teológico, Tertuliano pulou cinco degraus de uma vez.

Tertuliano defendia a Trindade?

Quem deseja entender o pensamento de Tertuliano certamente responderia esta pergunta afirmativamente. Quem responderia negativamente? Apenas aqueles que desejam se aproveitar dos escritos de Tertuliano para o próprio benefício. Apenas pessoas que se interessam por algumas frases deste escritor. Não importa o que ele pensa ou os conceitos que ele usou. Não importa a época que ele escreveu ou a quem seus escritos destinavam. O que importa é provar que a Trindade, esta que ele ajudou a defender contra os sabelianos, não foi defendida por ele.

E como podemos ver do exemplo de Atanásio, isto eles fizeram desde a época que surgiram.

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